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31 de dezembro de 2013

Há coisas mais importantes na vida que reuniões..



Definições não bastam 

Havia mais ou menos uma hora que a reunião não saía do ponto sobre qual dos componentes oferecia menos resistência elétrica. As profundas olheiras refletiam as longas horas que eles estavam debruçados sobre o enigma da supercondutividade, ao qual já dedicavam vários meses de experimentação e discussão.
O líder do grupo, um renomado cientista por seus impecáveis métodos investigativos dos segredos da físico-química sugeriu:
— Estou certo de que, se conseguíssemos aumentar a quantidade de bismuto no composto de óxido, chegaríamos mais perto dos resultados desejados. Pensem no que o sonho da resistência zero nos traria — chips ultra-rápidos, eletromagnetos superbaratos e tantas outras coisas.
Sua mente vagava pelas fantásticas possibilidades quando um colega interrompeu-o.         
— Pessoalmente, estou mais inclinado pelo estrôncio. Seja como for, até onde chegamos até agora?
O professor, arrancado de seus devaneios, sorriu.
— Alcançamos 23 graus de congelamento absoluto e...
De repente, a sala de reuniões do laboratório abriu-se e um assistente, trazendo um telefone sem fio, declarou:
— Professor, telefone para o senhor.
O homem não conseguiu disfarçar a sua irritação.
— Eu disse que não queria ser perturbado!
— É urgente, senhor. É sua esposa.
Ele pegou o telefone com má vontade.
— Quantas vezes já lhe disse que não me telefonasse aqui? O que foi desta vez?
— Aconteceu uma coisa terrível — a mulher soluçava do outro lado. — Nosso filhinho foi atropelado por um carro na frente de casa. Eu o deitei aqui e chamei a ambulância, mas não consigo sentir seu pulso.
— Ok. Fique calma. Logo estarei aí.
O telefone escorregou de sua mão quando ele voltou-se para os colegas. Aquele com quem estava falando, perguntou:
— O que houve? Parece que o senhor viu um fantasma. Professor? Professor?
O homem segurou-se no tampo da mesa e saiu cambaleando da sala sem sequer recolher seus papéis...

Explicação

            Se a busca das leis físicas leva ao profundo entendimento e à utilização da matéria e da energia, nossa vida e nossas esperanças mais profundas caminham num ritmo diferente. De tempos em tempos somos sacudidos por fatos que desafiam a nossa capacidade intelectual. Quando acontece um imprevisto, precisamos de  algo mais que meras definições. Precisamos do poder interior.

            A meditação nos ajuda a manter o equilíbrio diante do inesperado. Num dado momento, podemos estar plenamente lúcidos e eficientes quanto às nossas capacidades profissionais e, no momento seguinte, calmos e preparados para lidar com as dificuldades pessoais que porventura vierem a surgir. Existe um poder de concentração superior que controla a tendência à especulação inútil e a paciência de esperar pelos fatos.

Do livro: Reflexões para uma vida plena, Ken O'Donnell, Editora Integrare

26 de dezembro de 2013

Os segredos de manter-se feliz, não importa o que acontece




Pense na última vez em que você ficou chateado por causa de algo trivial. Quando, por exemplo, você se trancou fora da sua casa e, em vão, golpeou a porta. Ou quando foi anunciado que seu voo atrasou três horas devido a uma falha mecânica e você perdeu o seu compromisso. Ou quando você mudou para uma fila menor no supermercado e a pessoa  à sua frente, já no caixa, decidiu pagar todas as contas, de gás, luz e água… Ou quando o trânsito estava ruim e por isso você decidiu pegar o  seu atalho mais curto favorito e pegou um engarrafamento pior do que o  anterior. Nossas vidas estão cheias de tais eventos imprevisíveis que vêm como desafios ao senso de bem estar. Sacrificamos a nossa felicidade a essas situações, por nada. O único retorno por ficar chateado é uma dor de cabeça. Se isso se torna crônico, possivelmente seremos candidatos a ter uma vida mais curta.

Certa vez, eu estava de carro em Buenos Aires com um amigo. Quando o semáforo ficou verde, o carro estagnou. De repente, ouvi um taxista, que passou voando à minha direita, gritando a palavra 'mongólico' para mim. Ele, na realidade gastou sua fúria à toa pois, como eu ainda estava aprendendo espanhol, não entendi a expressão. Meu amigo me disse que a pessoa havia acabado de me chamar de imbecil. Mais tarde, eu fiz um cálculo rápido: se eu ganhasse cinco segundos a cada semáforo, no fim do dia, eu teria 10 minutos de tempo extra. Em minha mente eu criei uma caricatura de uma pessoa no semáforo cheia de raiva gritando 'mongólico' para todos os que se atrevessem a impedir o seu avanço. Dirigindo e arrancando nos semáforos seis dias por semana, durante 30 anos, chegaria a aproximadamente 2 meses de tempo extra! Mas, o quão mais curta seria a vida dele ao viver em tal estado permanente de ansiedade?

Recentemente, eu perguntei ao público de uma palestra, em Orlando, nos Estados Unidos, se a vida deles era confortável. Na autoestrada de Tampa, eu vi um enorme reboque levando um carro e um carro de golfe – combinação perfeita para um amante do conforto itinerante. A maioria então disse sim. Com isso, perguntei se eles ficam felizes, não importa o que aconteça. Eles disseram que poderiam permanecer mais ou menos felizes até que um próximo teste viesse, como aqueles que citei acima: uma chave perdida, um voo atrasado, uma fila pequena ou um atalho congestionado. Estes são apenas testes triviais. Imagine o quanto nós perderíamos se os testes fossem realmente importantes, como ter a nossa casa incendiada ou uma pessoa querida diagnosticada com câncer maligno. O fato é que precisamos de um grande estoque de entendimento e poder espiritual para passar pelo caos de cada dia.

Os segredos que aprendi

principalmente através de minha conexão com os ensinamentos da Brahma Kumaris, que me ajudaram a lidar com situações e a permanecer feliz ao longo dos anos:

1) Seja um observador desapegado

Isto significa manter uma visão ampla em relação ao que quer que aconteça. Todos os eventos fazem parte de uma peça incrivelmente maior, com cenas e cenários. Cada indivíduo tem um papel a desempenhar. Eu apenas tenho que me concentrar no meu papel e desempenhá-lo com a melhor das minhas habilidades. Todos estão sob a influência de suas próprias circunstâncias passadas e presentes. Na realidade, as pessoas apenas querem ser felizes e se possível evitar a tristeza. Elas querem entender as coisas e serem entendidas. Elas querem amar e ser amadas. É isso. Deixe que o show continue.

2) Felicidade consiste em doar

O fluxo da felicidade é um caminho de dentro para fora. Nesse sentido, eu não posso tomar felicidade dos outros ou das coisas. Eu só posso realmente dar. Felicidade é o tipo de coisa que aumenta realmente ao doar. Portanto, eu tenho que aprender a ativá-la e encontrar algo ou alguém para direcionar isso.

3) A outra metade de mim sou eu mesmo

A busca incessante por preenchimento através de objetos materiais e relacionamentos chega ao fim quando compreendemos que nós nunca nos encontraremos nas outras pessoas ou nas coisas físicas. Alguém mais, não importa quão grandioso(a) ele(a) seja, ou quão poético(a) seja, não pode mergulhar na minha alma e transformar meus sentimentos. As coisas e as pessoas podem me inspirar, mas, o quê e como eu me sinto depende de mim. É claro que a matéria satisfaz os sentidos físicos, mas não a alma. A própria busca por preenchimento começa com uma voz interna que clama para ser encontrada. A famosa outra metade da laranja sou eu!

4) Eu sou responsável

Eu sou responsável por meu estado espiritual e emocional. Há influências do presente e do passado, mas, eu não posso dizer, “eu sou assim por causa de alguém mais ou porque fui maltratado há 20 anos”. A vida é cheia de situações e testes, mas a menos que eu assuma a responsabilidade por meu estado mental e de espírito, eu sempre precisarei da misericórdia dos outros.

5) Estimulação dos sentidos não é felicidade

O mundo provê uma quantidade infindável de estímulos sensoriais, através de filmes, mp3s, vídeo games e atraentes divulgações. Eu não posso me lançar sem pensar, às coisas simples que me são oferecidas e ser impulsivo em um mundo que é a criação de alguém mais. Eu esqueço de ser o autor de mim mesmo. Não importa quão bela seja a cena, quão melodiosa seja a música ou quão saborosa seja a comida, meus órgãos sensoriais não são nem mais profundos do que eu e nem alimentam todos os meus desejos mais profundos, conectados a entender a vida e o meu verdadeiro papel nela.

6) Não crie e nem sustente expectativas irreais

Assim como eu tenho minhas limitações, todos os demais também têm. É irreal esperar que alguém seja constantemente amável, respeitoso e honesto comigo, quando eu sou, frequentemente, incapaz de fazer isso por mim mesmo. Eu não posso usar o respeito de alguém mais para compensar a minha própria falta de autorrespeito. Se eu sinto que alguém me traiu é porque eu traí a mim mesmo primeiro. É como apostar em um cavalo de corrida e meu cavalo não ganhou. Eu simplesmente rasgo o bilhete e sigo adiante.

7) A felicidade tem o mesmo tamanho que o meu potencial de bondade

Todos nós temos vocação para servir outros. Se eu puser o mundo de necessidades e de necessitados acima do meu próprio ego, poderei começar o trabalho de liberar o que é potencialmente bom em mim da prisão de minha ignorância. Ser verdadeiramente generoso e gracioso com os outros, não importa o quanto eles se comportem, é o início de ser capaz de ajudá-los. Ajudar os outros a serem mais felizes do que são capazes de ser é a maior caridade. Meu potencial para servir e minha possível felicidade têm o mesmo tamanho.

8) Aprender a estar no presente

A felicidade apenas pode ser experimentada no presente. Eu posso me lembrar de que eu era feliz ontem, mas, eu não posso experimentar essa felicidade agora. Se eu estou sempre olhando para trás, tentando extrair felicidade do passado ou procurando pela felicidade que eu posso ter essa noite, ou no fim de semana, ou quando eu estiver em férias, as oportunidades presentes passam. Se saio para caminhar, que eu possa apreciar o céu, as árvores e o dia. Se eu estou com outras pessoas, que eu possa apreciá-las como elas são. Que eu possa saborear a comida, apreciar a música, sentir a brisa, sem depender dessas coisas.  Eu então terei muitas razões para ser feliz nas coisas simples.

9) Meditar diariamente aumenta o meu estoque de entendimento e poder espiritual

Infelicidade é a falta de poder espiritual. Se eu gasto mais dinheiro do que ganho em um longo período de tempo eu vou à falência. Se eu gasto mais poder espiritual do que eu reponho diariamente, eu me torno espiritualmente falido. O truque, portanto, é acumular um estoque através da prática diária de meditação. Se eu posso meditar bem por 20 a 30 minutos como a primeira coisa que faço pela manhã, por 2 a 3 minutos de vez em quando durante o dia, e outros 20 a 30 minutos à noite, meu estoque de poder espiritual deverá ser suficiente para passar pela maioria das situações. Esse poder tende a se acumular conforme aprendo a pensar melhor. Quando os obstáculos maiores aparecem, deveria haver o suficiente para passar sobre eles também.

Veja o texto postado sobre meditação prática, neste mesmo blog (Pense menos, pense melhor – aprenda a meditar)

9 de dezembro de 2013

A poesia da transformação (1)



Andava só, ilhado pelos próprios pensamentos, as palhas dos problemas agarradas a mim.
As mãos fechadas, o destino maior impedido.
Atirei-me no fogo do amor e vi que somente as palhas são
consumidas.
A casca de máculas se derrete e revela o ser intocado.
Qual é o sacrifício, se apenas o inútil se queima?
E suas chamas iluminam o caminho reto da plenitude.
Que perdas há?
Se a minha fortuna se acende de vez
E sua luz desfaz o poder das antigas sombras endeusadas no altar de uma mente cega.
No espelho do saber, apenas a verdade se reflete dignamente

Apenas aquele que se livra da carga tem a leveza de se ver.

2 de dezembro de 2013

Pensar menos, pensar melhor (3) - Entender a essência das coisas


Houve uma fase da minha vida em que trabalhei como perfumista. Aprendi que, assim como as flores tem uma pequena porcentagem de essência, as situações da vida também tem uma pequena porcentagem de coisas importantes e uma grande quantidade de detalhes desnecessários.

Antigamente, no sul da França, onde a lavanda é cultivada, a população local montava uma unidade de destilação ao lado dos campos de flores, para fazer uma destilação simples ali mesmo. (Hoje em dia, o processo é bem mais mecanizado.) A proporção de essência na lavanda é ao redor de 0,05%, isso significa que, 5 quilos de óleo podem ser extraídos de cada tonelada de pétalas.

Qualquer pessoa que já viu uma tonelada de pétalas sabe que essa quantidade encheria um salão imenso. Naquela época, portanto, era um absurdo para eles carregarem essa quantidade de pétalas até a cidade para extrair o óleo, uma vez que é uma substância estável, que podia ser destilada no campo e refinada mais tarde. O bagaço só servia para fertilizar as plantações futuras. Do mesmo modo, ao invés de carregar os bagaços volumosos dos detalhes insignificantes das diversas situações que passo na vida, eu devia aprender a identificar e reter os 0,05% da essência significativa e ignorar o restante. É muito mais leve e mais fácil de usar!
Muitas vezes, o que é realmente importante escapa porque insisto em carregar na cabeça as trivialidades não importantes. Se apenas checar as últimas vezes em que fiquei aborrecido, verei que o agente provocador foi algum detalhe insignificante. A raiva sempre tende a exagerar.

Há três efeitos principais na pessoa que tem a cabeça cheia de bagaço:
§  Sobrecarga mental e intelectual;
§  Fragmentação pessoal;
§  Sensação interna de fraqueza e letargia.
Deveria entender profundamente esses três ladrões que roubam as minhas qualidades como ser humano.

Continuando com a analogia da perfumaria, há a situação do jasmim. O jasmim é muito delicado e seus ésteres são muito voláteis. A essência não pode ser destilada. As pétalas dos jasmins escolhidos minuciosamente são colocadas em solventes especiais que permitem que o chamado jasmim absoluto precipite. Os solventes, então, são evaporados. Um método mais caro, chamado enfleurage é muito utilizado na França. As pétalas são colocadas em um quadro untado com gordura para absorver o aroma. A gordura é processada para extrair o jasmim absoluto. Em ambos os casos, o preço, por quilo, do jasmim absoluto, dependendo da qualidade, pode ser mais de 5.000 dólares. O aroma característico do jasmim é devido ao éster chamado acetato de benzila Acetato, que compõe 65% do óleo. O Benzyl Acetato custa apenas 2-3 dólares o quilo. (Adivinhem o que os fabricantes usam em perfumes baratos e incensos!)

Do mesmo modo, muitas situações parecem verdadeiras, mas, de fato, não são. A essência pura foi substituída por algo falso. Por isso, nós realmente precisamos trabalhar o nosso poder de discernimento de modo que, depois que as situações vêm e vão, permaneço com o verdadeiro, e nem o bagaço, nem a falsidade pesem para baixo.

Referência: O livro, A Última Fronteira


27 de novembro de 2013

Pensar menos, pensar melhor (2) - Dormir melhor, cansar menos


Uma pesquisa realizada pelo respeitado instituto de pesquisa IBOPE, divulgada em novembro de 2013, revelou que 98% dos brasileiros se sentem um pouco ou muito cansados mental e fisicamente. Entrevistaram 1.499 homens e mulheres, de 18 a 65 anos, que vivem em cidades brasileiras. Para 70% dos entrevistados, o ritmo acelerado da vida cotidiana e o estresse são as principais razões para isso. Devo admitir que dá para observar este mesmo fenômeno em muitos outros países.
Há quase 40 anos atrás, aprendi algo que trouxe uma mudança fundamental na minha vida. Percebi que a qualidade do sono é muito mais importante do que a quantidade de horas dormidas. Treinei-me para dormir 5 ou 6 horas em vez de 8 e passei a me sentir melhor. Desde aquela época, ganhei mais de 3 anos que teria gasto dormindo. Tenho usado esse tempo extra para fazer muitas coisas construtivas como, por exemplo, escrever este blog! Entendi também, que a qualidade dos pensamentos era a principal fonte de cansaço, se pudesse pensar menos e melhor, eu realmente teria mais energia.
Por exemplo, posso trabalhar solidamente durante 12 horas com alegria, dando os retoques finais a um trabalho criativo e não me tornar tão desgastado como quando estou preocupado ou lamentando algo. Definitivamente, experimentei que, através da prática da meditação, posso diminuir e até eliminar os pensamentos inúteis que induzem a fadiga.
Como parte da minha própria disciplina pessoal, comecei a levantar-me muito cedo para meditar e tirar proveito do que é chamado ‘amrit vela’ – as “horas de néctar” na Índia. É das 4 às 6 horas da manhã. Existe o silêncio máximo nessa hora, na maioria dos lugares do mundo. Antes de envolver-me no mundo da ação, defino meu estado interior e afirmo meu valor intrínseco. A seguir há um exemplo da determinação que fixo para mim mesmo:
“Aconteça o que acontecer durante o miríade de eventos do dia, irei manter a minha serenidade. Ninguém e nada irá tirar aquilo que eu sou. Sou basicamente um ser de paz, de amor e de contentamento. As pessoas serão como elas são. Eu não posso mudá-las. As situações virão como vierem. Não  tentarei controlá-las. Ao invés disso, controlarei  meu estado interior e através disso, influenciá-las positivamente. Os obstáculos são oportunidades para aprender”.
Ao praticar isso conscientemente, descobri que poderia passar através das cenas e cenários, observando tudo que era para observar e participando quando tinha que participar. Podia separar o essencial do inútil, e, assim, reduzir a quantidade de pensamentos. Desta forma, aprendi a cansar menos. O negócio não é desenvolver métodos para o descanso. É aprender a não cansar tanto.
(O próximo post: Pensar menos, pensar melhor – Parte 2)

Referência: O livro, A Última Fronteira

12 de novembro de 2013

A Alma Quântica

Aqui o link para o curso que conduzi sobre este tema no Centro de Retiros da Brahma Kumaris em Serra Negra no fim de semana de 9 e 10 de novembro, 2013.
Em futuros blogs estarei explicando.

17 de outubro de 2013

Ninguém e nada tira meu valor verdadeiro



Ao longo dos anos, devo ter falado com centenas de pessoas que queriam alguma orientação para ajudar-lhes a enfrentar algum problema pessoal. De uma forma ou de outra, sempre acabávamos falando sobre autorrespeito. Especialmente nos casos em que a pessoa estava se sentindo desanimada ou incapaz diante de algum obstáculo, sempre parecia haver uma incapacidade de reconhecer e sustentar o sentimento de valor próprio.

Logo após o lançamento do livro "Valores Humanos no Trabalho", fui convidado a ministrar uma palestra sobre o assunto no Banco Central do Brasil. Como seria televisionada para as unidades em todo o país, fui lá um dia antes para me certificar de que estava tudo bem. Quando entrei no prédio em Brasília, alguns cartazes chamaram minha atenção. Eles tinham lançado uma campanha para que as pessoas tratassem as notas de dinheiro com maior cuidado. Eles me informaram que poderiam economizar até 15 milhões de dólares por ano, se as pessoas não maltrassem o dinheiro impresso. Isso me deu uma ideia sobre o que eu poderia fazer na palestra. Naquela noite, eu fiz uma fotocópia colorida de uma nota de 100 reais (cerca de 50 dólares na época).

No dia seguinte, após 20 minutos na palestra eu puxei a nota do bolso e disse que estava me sentindo generoso e que a daria para quem levantasse a mão primeiro. Cerca de oito pessoas ergueram as mãos. Com muita cerimônia, eu amassei a nota e perguntei-lhes se ainda queriam. Eles responderam que sim. Neste momento, uma das organizadoras me olhou de forma desvairada, como se dissesse: O que você está fazendo? E sobre a campanha? Indiquei a ela para não se preocupar.
Então, joguei a nota amassada no chão e pisei nela. Perguntei se eles ainda receberiam a nota de R$100 e disseram que sim. Finalmente eu a peguei e a rasguei ao meio. No silêncio atônito, ofereci os dois pedaços ao primeiro que levantou a mão. Como era um funcionário do banco, ele brincou: ‘Acho que daria para trocá-la no Banco Central’. Havia um espanto (e alívio) ainda maior, quando anunciei que era uma nota falsa. (Com uma olhada acalmei a organizadora ansiosa). Expliquei que eu jamais faria isso com uma nota de verdade. Eu fiz para mostrar a fundação da autoestima e portanto, de um comportamento baseado em valores. De certa forma, eu sou como uma nota de dinheiro de verdade. Não importa o que o mundo faça comigo. Ele pode me amassar. Ele pode me pisotear. Ele pode até mesmo me rasgar ao meio. Mesmo assim, meu valor intrínseco não muda.

O autorrespeito é, sobretudo, conhecer e agarrar-me ao meu próprio valor. Há aspectos de minha consciência fundamental que não mudam com as circunstâncias. É como um DNA espiritual. Mesmo que eu flutue de acordo com as cenas mutantes ao meu redor, certas qualidades profundas como amor, paz, felicidade e verdade são meu lastro interno. Elas são parte de mim. Ninguém e nada pode levá-las embora. Eu as perco, basicamente, porque me esqueço de quem realmente sou. Quando isso acontece, eu também me esqueço do que é verdadeiramente meu.



13 de outubro de 2013

Pensar menos, pensar melhor (1) - Alcançar mais...



Quando pequenos, aprendemos a falar, a contar, a ler e a escrever. Muito ensaio e erro depois, a maioria de nós se dá razoavelmente bem. Mas nunca ninguém nos ensinou a pensar - como criar o tipo certo de pensamentos e evitar os inúteis, os improdutivos e até mesmo os negativos. O pensar parece ser apenas um fluxo interminável que nem sabemos de onde vem. O que quer que apareça na mente nos leva consigo, produz diferentes sentimentos e estados de espírito e pode até nos distanciar da realidade.


Recentemente, ministrei uma palestra para os executivos de uma autoridade aeroportuária regional no Brasil, um pouco estressados devido à atualização dos aeroportos para a Copa de 2014. Eu perguntei aos participantes como seria se eles conduzissem os aeroportos, da mesma forma que conduzem suas mentes. Todo mundo deu risada, mas foi uma questão séria. Durante a hora de pico, o principal aeroporto doméstico de São Paulo, pode chegar a frequência de um avião pousando ou decolando a cada dois minutos. A mente é como um aeroporto também. Pensamentos, sentimentos, memórias, sensações e inspirações pousam e decolam com uma velocidade muito mais rápida.

Eu fiz um cálculo rápido. Se há 1.440 minutos em um dia e gastamos 440 em dormir (para facilitar o cálculo), isso deixa 1.000 minutos em que estamos despertos. Se há alguma atividade mental, digamos a cada dois segundos isso chega a 30.000 'voos' por dia! Estes fragmentos de consciência giram de uma forma muitas vezes sem sentido, o que impede nossa clareza e concentração. Pedacinhos do nosso pensar reduzem a determinação e a produtividade. Da mesma forma que um aeroporto tem que ter um controlador de tráfego aéreo para sequenciar os voos e evitar acidentes, precisamos aprender a pensar de uma forma mais ordenada. A meditação Raja Yoga é uma ótima maneira de fazer exatamente isso. Temos que usar os pensamentos sem negá-los ou sem tentar ir além deles. Podemos literalmente treinar-nos a pensar menos, pensar melhor e conseguir mais.

É um processo passo-a-passo:
1)      Crie um objetivo para sua meditação. Pense sobre o que você quer experimentar, por exemplo, a paz, o amor ou o poder espiritual. Anote algumas ideias relacionadas com a experiência que você quer ter. Essas ideias formarão a base de um "campo de contemplação" na meditação.
2)      Torne-se um observador desapegado. Olhe para o fluxo de pensamentos como um passageiro num trem olhando para as cenas que passam pela janela. Não tente lutar contra os pensamentos. Basta olhar para eles e lembrar-se que você é o criador deles. Ninguém mais entrou na sua cabeça para criar seus pensamentos. Você o fez. Se você tentar parar de pensar algo, aquilo tende a ficar mais forte ainda. Assim, apenas deixe o ir e vir deles. Coloque sua atenção na sede da consciência, onde você está realmente criando os pensamentos. Visualize um assento sutil por trás dos olhos, no meio da testa e assente o seu pensamento lá.
3)      Lembre-se de seu objetivo para a meditação. Vamos dizer que você decidiu experimentar o seu próprio poder espiritual. Olhe para as ideias que você tinha escrito. O poder espiritual está conectado com o quê? Os meus pensamentos conseguem chegar à Fonte do poder espiritual? Qual é a sensação de recarregar as baterias internas? Se você fosse mais forte internamente, como você ficaria com relação ao seu trabalho, relacionamentos e as tarefas que você tem que fazer? Desta forma, você cria um "campo de contemplação", em que você começa a desacelerar os pensamentos e se torna mais focado.
4)      Aos poucos, uma das ideias lhe parece tornar-se mais importante. Se você tivesse que se tornar a essência do objetivo do poder espiritual, qual destes pensamentos estaria mais ligado com isso? Concentre-se neste pensamento único.
5)      Visualize-se como um pequeno ponto de energia consciente e gradualmente torne-se a personificação da experiência que este pensamento focado implica. À medida que você vai mais fundo na experiência, você realmente para de pensar. Você não está mais intelectualizando sobre o que está acontecendo. Fique mais algum tempo neste estado e gradualmente volte à percepção do seu entorno.


Se você conseguir fazer esse tipo de exercício mental regularmente, você definitivamente vai aprender a pensar menos e pensar melhor. Com tanta clareza e concentração você será capaz de conseguir mais com menos esforço.

1 de outubro de 2013

A arte de conversar


Quantas vezes somos capazes de ter a conversa que realmente queremos com alguém próximo - tal que pode limpar todos os detritos dos mal-entendidos e definir o caminho para um futuro mais claro? Conversar significa ver algo com alguém. Se eu vejo as coisas de forma muito diferente do meu interlocutor, a comunicação pode quebrar completamente. Communicare em latim significa literalmente compartilhar o que é comum. A arte da conversa significativa é baseada em ser capaz de estabelecer um terreno comum com a pessoa com quem falo, independentemente de sua idade, origem cultural, social ou educacional. Se não conseguir ou não fizer esse esforço, há um perigo real de a conversa ​​tornar-se dois monólogos. Isso é especialmente importante quando o resultado for crucial ou o tema for difícil.
Ao longo dos anos, tive a grande fortuna de poder visitar quase 100 países - cobrindo muitas culturas e tradições. Eu posso dizer definitivamente que as diferenças entre nós são bastante superficiais. Temos muito mais em comum uns com os outros que imaginamos .
Eu fiz a seguinte pergunta, "o que é importante em um bom relacionamento entre dois seres humanos?" para os mais diversos públicos - cientistas na Grécia, vendedoras na Argentina, índios na Bolívia, trabalhadores na Índia, monges na Coréia. Invariavelmente, todos responderam o que você, leitor, provavelmente está pensando no momento - respeito, confiança, honestidade, empatia e assim por diante. As mães amam e sofrem com seus filhos em qualquer lugar, praticamente da mesma forma. Taxistas em Sydney, Istambul ou Madrid ficam com raiva do mesmo jeito e, provavelmente, pelos mesmos motivos. As palavras podem ser diferentes mas os gestos são os idênticos. Tanto o presidente como a recepcionista que trabalham na mesma empresa, querem ser felizes se puderem, querem amar e ser amados, se possível, e tentam compreender e ser compreendidos. Afinal, ambos são seres humanos antes que os papéis que desempenham.
Debaixo das cores da pele, credos, línguas e preferências, valorizamos e aspiramos de uma maneira similar em todo o planeta. Eu só tenho que aprender dar uns passos para trás e ver o terreno comum onde eu possa me encontrar com outras pessoas como elas são, sem preconceitos. Se não fizer isso, confusões e conflitos são o resultado frequente.
Eu particularmente tenho que entender que a imagem da outra pessoa eu carrego na minha mente provavelmente, não é o que ela é. Eu falo com "minha" ela  e ela fala com o 'seu' eu. E nenhum de nós realmente conversamos com o verdadeiro ser por trás destas imagens.
Quantas vezes minha visão pode ver por trás de uma mente que é diferente da minha, de um intelecto que funciona em outro nível que o meu, e de um conjunto de traços de personalidade que pouco têm a ver com o meu? Quantas vezes a alma do lado de cá, se conecta com a alma do lado de lá, de modo que o entendimento comum e real pode ser compartilhado? Eis o desafio.

24 de setembro de 2013

Escolher viver



Recentemente, fui convidado para a cidade de Santa Maria, no sul do Brasil, por um grupo de cidadãos e funcionários públicos para conversar com eles sobre o tempo em que vivemos. Foi o lugar onde 250 jovens perderam suas vidas em um incêndio numa boate em janeiro de 2013.
É algo muito difícil esquecer as cenas de horror que apareceram, especialmente para as famílias que perderam entes queridos. Sabemos que a vida é dura, que as tragédias acontecem - algumas evitáveis e outras não. Prédios caem, navios afundam, terremotos e tsunamis destroem. Neste caso, foi uma série de erros humanos, tanto anterior ao evento, como no dia do desastre. A lista de irregularidades que contribuíram para o fato é longa:
  •  Havia superlotação naquela noite.
  • O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso no palco.
  •  As faíscas atingiram a espuma do teto e deram início ao fogo.
  • O extintor de incêndio do lado do palco não funcionou.
  • A saída foi insuficiente para tanta gente.
  • Etc. etc.
Como sempre, quando tais desastres humanos acontecem, ficamos segurando os pedaços de uma triste realidade e lembranças do que poderia ter havido. Apesar do sofrimento, a vida continua. Não obstante, temos uma dívida com aqueles que pereceram – extrair as lições certas, tanto técnicos e humanos.
Podemos punir aqueles que precisam ser punidos. Podemos lamentar as vidas perdidas. No entanto, a maior homenagem a estes seres que deixaram seus corpos no incêndio, é aprender todas as lições que podemos a fim de evitar desastres semelhantes no futuro. Infelizmente, não há nenhuma garantia que será assim.
Como sempre em situações deste tipo, corremos atrás do prejuízo. Seguimos a frase de Emerson em cima ao pé da letra. Por todo o país, prefeituras se mobilizaram para revisar alvarás de casas noturnas e outros ambientes fechados para aumentar a segurança. Mas, a retrospectiva e suas lições só nos servem se formam a base de uma perspectiva futura nova e mais abrangente, baseada em escolhas mais sólidas. Não adianta nada ficar no tempo do verbo irreal – “se tivéssemos ou não tivéssemos feito algo, poderíamos ter evitado este desastre”. Aconteceu. Vamos em frente, mas mais conscientes.
Na palestra, lembrei o começo do livro clássico de Charles Dickens, Um Conto de Duas Cidades, sobre a época da Revolução francesa em contrastava Londres com Paris:
"Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós...”
Esta frase mostra as escolhas que temos em todas as época e mais especialmente o tempo em que vivemos hoje.
É crucial aprendermos identificar as opções de vida que temos entre o melhor e o pior e como desenvolver o poder de discernir que é a base de fazer as escolhas certas. O poder interior vem da prática de meditação e reflexão pessoal que nos ajuda pensar menos e pensar melhor.
Alguém que tentar ver o mundo apenas pelo buraco de seus interesses egoístas acabo no vendo o mundo como ele é, mas como o ego manda. Se abrimos nossa perspectiva, naturalmente vemos mais. Se vemos mais entendemos mais e escolhemos melhor.
Num ano como este que passou, não consigo pensar num maior presente para alguém de qualquer idade que o poder de discernimento. Estamos sendo bombardeados com informações verbais, visuais e por escrito de maneira constante. Um ser humano que vive numa grande cidade fica sabendo mais num único dia que alguém da época da revolução francesa ficou sabendo em toda sua vida. Além disso, há um buffet contínuo de ofertas para os sentidos. Com tantos variedades de produtos, serviços, cursos, formas de diversão fica difícil saber o que quer e navegar bem por um mar de verdades e falsidades de todos os lados.
O poder de discernir é a capacidade de enxergar a diferença entre duas ou mais situações ou objetos. Assim, acaba sendo como uma grande bússola nestes tempos conturbados. Assim, se torna uma das armas mais poderosas de sucesso, não apenas nas nossas vidas pessoais, mas certamente na nossa formação profissional.
Finalmente, se tivermos o poder de discernir, podemos escolher como, onde e com quem celebrar a vida.
Sydney Carton, o herói de Um Conto de Duas Cidades,  depois de ter trocado de lugar com um amigo, que estava para morrer na guilhotina, disse pouco antes de o machado cair: "É uma coisa muito, muito melhor que faço, do que eu já fiz, é um descanso muito, muito melhor que eu vá para que eu já conheci."
Até o último suspiro, escolhemos o nosso caminho..

15 de setembro de 2013

A base verdadeira de felicidade


Ele se orgulhava da sua nova coleção de CDs de bossa-nova. O ritmo e os acordes inusitados que caracterizavam esse estilo de música popular brasileira o encantavam cada vez mais, desde que visitara o Rio de Janeiro no ano anterior. Escolheu um disco de Tom Jobim e pôs para tocar.
Então pegou sua bebida de preferência, suco de abacaxi e hortelã e cruzou as portas de vidro em direção ao terraço. Pela centésima vez, desde que comprara esse lugar, admirou a vista. Numa altitude de quinhentos metros a casa estava completamente cercada pela floresta subtropical. Lá em baixo, lagoas azuis enfileiravam-se, algumas delas diluindo-se no mar de água turquesa, a apenas cinco quilômetros de distância. O sol emprestava sua luz mágica a esse cenário deslumbrante. 
— Sua lasanha está pronta, querido — a esposa chamou-o da sala de jantar. Ele se casara com ela fazia um ano. Embora já fosse o seu terceiro casamento, parecia finalmente ter encontrado alguém para compartilhar a vida. E ela fazia uma ótima lasanha.
— Traga-a para cá. A mesa está posta aqui fora.
— Já estou indo — ela avisou, aproximando-se com a travessa fumegante. Estava corada, o que a deixava ainda mais bonita. Talvez fosse a satisfação de ter feito uma ótima comida.
— Que cheiro delicioso! Estou morrendo de fome. O ar da montanha me deixa faminto.
Minutos depois, quando está a ponto de colocar na boca um pedaço da massa, o celular tocou. Aborrecido, ele deixou o garfo no prato:
            — Meu Deus. Não sei porque toda vez que me sento para comer o telefone toca.
Ele pegou o celular, e do terraço, sua mulher podia vê-lo acenar com a cabeça e exclamar. Seu rosto estava branco como cera.
— O que aconteceu? — ela perguntou. — Vai sentir-se melhor depois que comer.
As palavras saíram aos borbotões.
— Perdi o apetite. Era o médico de minha mãe. Ele acabou de receber os exames. Ela tem um tumor no fígado. Maligno. Não é nada bom.

Comentário: Nós construímos castelos de ilusões sob a premissa irreal de que nada acontecerá para derrubá-los. Às vezes, só as más notícias conseguem nos afastar das coisas que os nossos órgãos dos sentidos mais apreciam. Não ouvimos a música, não sentimos os aromas, não vemos a paisagem e nem provamos o alimento. Não notamos sequer quem está a nossa volta. Algo acontece que não podemos entender. Não se encaixa no nosso mundo ideal.
Acabamos de constatar. A verdadeira felicidade não se baseia nas coisas que nos rodeiam, mas na compreensão que temos delas.

Do livro,"Reflexões para uma vida plena" de Ken O'Donnell , Editora Integrare, São Paulo (link)

13 de setembro de 2013

O ego: seu lado feio


É 12:45H. Você só tem mais 15 minutos para almoçar e voltar para o escritório. Você teve de parar no supermercado para comprar uns itens para a comemoração especial da noite. A fila é longa, mesmo para aqueles com 10 pacotes ou menos. Você vai para uma fila mais curta e por algum motivo ela pare. Você vê a fila que você acabou de deixar está começando a se mover mais rápido. Enquanto isso, a pessoa na sua fila na frente do caixa começa a questionar o preço de algo. Depois de alguns minutos, o assunto se resolve. Em seguida, ele decide colocar crédito no seu celular. Mais alguns minutos passam, devido a um erro com o seu número. Você começa a fazer comentários desagradáveis ​​para a pessoa atrás de você. Nenhum resultado. Você aumenta o volume de sua voz para que a menina no caixa ouça. Talvez, você espere fazê-la sentir-se culpada e assim, colocar a fila em movimento. Quando você chega mais perto, você vê que o indivíduo que parou a fila tem um cão-guia esperando-o pacientemente do outro lado. Você se sente envergonhado e procurar um lugar para se esconder.
Parabéns, o seu ego acabou de mostrar seu lado mais feio. Você na verdade, é cego.
Tanto em latim como em grego, a palavra ‘ego’ significa apenas 'eu'. Mesmo que a palavra ‘ego’ tenha sido usado por Freud para referir-se ao mediador entre os impulsos instintivos (id) e a realidade, o uso mais comum tem a ver com o senso de auto- identidade e importância própria. Geralmente, é associado com arrogância ou egocentrismo. O problema não é o ego em si, mas como ele é usado. Afinal ‘eu’ sou apenas ‘eu’. Eu não sou outro ‘eu’. Eu posso ser o melhor ou o pior ‘eu’. Tudo depende de como eu me vejo em relação aos outros e eventos.
No exemplo acima, por causa da pressa, a pessoa na história só pode ver suas próprias necessidades e é totalmente inconsciente das do cego na fila. Este ‘eu’ míope vê o mundo como uma função de si mesmo. Este ego limitado é um sol e as outras pessoas e as coisas giram em torno dele.
Através da prática da meditação e de uma compreensão de algumas regras básicas do jogo da vida, u posso começar a associar-me com um senso maior de que eu sou. Eu sou um ser espiritual. Como tal, sou filho da fonte que chamamos Deus, Alá, Jeová, Shiva ou o nome que quiser. Eu tenho uma visão mais ampla e profunda do mundo. Eu vejo os outros em seu próprio direito de ser e não como uma função das minhas necessidades ou desejos. Eu vejo os impactos do passado no presente em qualquer cena e suas consequências futuras. Por ser mais amplo e profundo na minha abordagem estou emocionalmente mais estável. O esforço espiritual portanto, não é de anular o ego, mas elevar o senso do ‘eu’ ver as coisas como elas são e não como eu sou.
Na tradição judaica, este lado feio do ego, é mostrado como um gigante numa encruzilhada ameaçando pessoas com um enorme machado. Os mais impacientes foge dele ou faz o que ele quer. Os que observam mais, notam que o gigante não tem pés e permanecem despreocupados diante de suas ameaças.
Vamos voltar para a cena anterior:
É 12:45. Você só tem mais 15 minutos para almoçar e voltar para o escritório. Você teve de parar no supermercado para comprar uns itens para a comemoração especial da noite. A fila é longa, mesmo para aqueles com 10 pacotes ou menos. Você percebe que as pessoas na sua fila realmente têm muito poucos itens. Você espera pacientemente a sua vez e a filas começa a se mover. Quando você se aproxima do caixa, você percebe um homem com um cão-guia questionando o preço de algum produto. Você sutilmente se empatiza com ele. Chega a sua vez e você paga por seus itens. Você ainda tem 5 minutos para voltar para o seu escritório que está na esquina. Você se sente bem. Missão cumprida.

Em essência, eu só tenho que ser o melhor eu que posso ser.

5 de setembro de 2013

Você não precisa ser um expert para fazer algo interessante


Vivemos num mundo superespecializado. Basta dar uma olhada na área da saúde: há especialistas para cada parte do corpo (olhos, ouvidos, nariz, rosto, ossos, sangue e assim por diante). No campo das emoções há especialistas para fobias, manias, síndromes, inter-relações. A lista é interminável. A legislação tornou-se tão complexa que até mesmo para coisas simples precisamos consultar um advogado. Lembro-me de falar com o presidente da câmara de vereadores de São Paulo, quando fui dar uma palestra há alguns anos e ele disse-me que seu objetivo era reduzir as 11.000 leis municipais para 8.000 dentro de um período de dois anos. Tudo na nossa vida parece ser regulado, mas em meio ao caos de São Paulo as coisas certamente não parecem funcionar de uma forma regulada.
Como nos tornamos especialistas em diferentes fragmentos da realidade, provavelmente perdemos de vista como tudo se encaixa. Além disso, passamos a depender quase totalmente daqueles que são apenas especialistas em fragmentos. No poema A Rocha (1934) T. S. Eliot expressa isso muito claramente:

O infinito ciclo das ideias e dos atos,
infinita invenção, experimento infinito,
traz conhecimento da mobilidade, mas não da quietude;
conhecimento da fala, mas não do silêncio;
conhecimento das palavras e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento aproxima-nos de nossa ignorância,
toda a nossa ignorância aproxima-nos da morte,
mas a aproximidade da morte não nos aproxima de Deus.
Onde está a vida que perdemos em viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde o conhecimento que perdemos em informação?

Na busca de um significado mais profundo para as peças de quebra-cabeça da vida, podemos ficar intimidados pela forma com que os especialistas são valorizados em nossa sociedade. Muitos acreditam que eles precisam de um diploma e anos de experiência antes de fazer algo importante. Isto pode ser verdade, em alguns casos. Nós certamente precisamos ter estudado sobre cirurgia para poder realizá-la. Quem iria querer ser representado em uma questão legal complicada por alguém que não tivesse as qualificações e a experiência necessárias? No entanto, quando se trata de questões relacionadas ao viver e interagir com o mundo, as únicas qualificações que precisamos são a sensatez, a curiosidade e a determinação.
Vários anos atrás, tive a ideia de criar um DVD com sequências de meditação visual e música de fundo. Não haveria palavras, o que tornaria o projeto incrivelmente acessível. Sem palavras significa sem traduções. Como seres humanos, a maior parte da nossa comunicação está conectada com os sentimentos e vibrações e o fato de que temos aspirações comuns relacionadas ao amor, à paz e à felicidade. As palavras são, por vezes, até mesmo supérfluas. Então, eu percebi que, se preparasse alguns vídeos simples e os deixasse disponíveis, as pessoas iriam se interessar.
Não sou um especialista em design gráfico nem em produção de vídeos. Na verdade, considero-me apenas um leigo nessas áreas. Sem me incomodar com minha falta de experiência, preparei uma demonstração e a entreguei para um amigo na Índia, que posteriormente a postou no Youtube. Agora, alguns anos depois, esta inspiração simples já foi vista 3.246.644 vezes (no dia da postagem deste blog). Se você está interessado, clique neste link.


Realmente, você não precisa ser um especialista para fazer algo interessante e para o benefício dos outros. Além disso, não temos que nos perder mais nos fragmentos.

4 de setembro de 2013

As coisas só têm força quando são usadas em seu contexto


          
            Os fortes ventos já haviam se transformado numa brisa fria quando o menino saiu para caminhar pela praia. Foi então que um objeto, já esbranquiçado pela ação do tempo, chamou-lhe a atenção. Grosso como a perna de um homem de um dos lados, curvo e adelgaçado do outro, era da altura dos ombros do menino.
            Colocando-o na sua frente com o desvelo de quem está diante de um prodígio, o menino pegou uma pedra e começou a bater para saber do que era feito. Após quinze minutos de muito suor e pouco resultado, seus esforços foram vencidos pela dureza do objeto.
            Com um brilho de alegria nos olhos, o menino tomou a decisão definitiva. Erguendo o objeto e arrastando-o pela areia, puxou-o morro acima até sua casa, a cento e poucos metros de distância.
            Lá, seu pai e o irmão mais velho construíam um muro de tijolos no lugar da velha cerca de madeira que fora derrubada pela pior tempestade de que se tinha lembrança. Ao ver seu filho pequeno arfante, arrastando pela grama um grande objeto curvo, ele perguntou:
            — O que você tem aí?
            — Não sei, pai, encontrei isto na praia. É a coisa mais dura que já vi.
            O pai pegou o objeto nas mãos, examinou-o de vários ângulos e concluiu:
            — É parte da espinha de uma baleia, a que fica próxima ao rabo. Deve ter vindo parar na praia durante a tempestade. Por que trouxe isto para cá?
            Com o orgulho inocente, o menino anunciou sua excelente ideia.
            — Achei que poderia ser usado no muro. É tão forte...
            — Ninguém duvida da sua força, filho. Muitos foram os barcos pesqueiros que sentiram no casco o poder desse rabo. Mas estaria fora de lugar aqui no muro. Não tem nada a ver com tijolos nem cimento. Em vez de ajudar, enfraqueceria a estrutura.
            Inconformado e infeliz, o garoto resignou-se em levar o objeto de volta à praia.
            — Então não serve para nada?
            — Não, filho. Apesar de forte, isso valeria no máximo como objeto de curiosidade.
           
                                                                        ******* 

            De fato, as coisas só têm força e poder quando usadas em seu contexto. Mesmo que eu fosse a pessoa mais paciente do mundo, se a situação exigisse determinação no agir, minha estrutura interior estaria enfraquecida e, por isso, a proteção que teria me proporcionado seria menor. Mesmo que o meu entusiasmo para agir já fosse inquebrantável, se as circunstâncias exigissem uma calma perseverança, eu não seria capaz de suportar as pressões.
A meditação ajuda-me a acumular poderes e virtudes espirituais para que estejam à minha disposição quando e onde eu quiser usá-los.

Do livro "Reflexões para uma vida plena" de Ken O’Donnell, Editora Integrare, São Paulo