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18 de dezembro de 2015

Download da palestra sobre auto-estima de Ken, 17-12-15


No dia 17 de dezembro eu dei esta palestra pela Web - "Dê uma guinada no seus autoestima para 2016" .

Aqui o link para audio, video e Powerpoint,

16 de novembro de 2015

Como o tempo passa!




A visão típica do tempo é mais ou menos assim. 

Alguns de nós que temos idade suficiente, ficamos um pouco assustados quando vemos nossa fotografia de 20 anos atrás. Envelhecemos. Temos menos cabelo, talvez menos dentes e, certamente, mais rugas. Talvez não tenhamos feito todas as coisas que tínhamos planejado. O tempo passou e cobrou seu preço de nós. Então, o que é essa coisa misteriosa que costura dias, meses e anos de forma tão inexorável? Não podemos vê-lo, ouvi-lo, sentí-lo, saboreá-lo ou tocá-lo. O tempo nos muda - nossa aparência física e experiência interior – mas não conseguimos mudá-lo.

Dizemos que ele voa ou se arrasta, mas na verdade ele só rola para frente com a mesma constância de sempre. Não queremos desperdiçá-lo. Estamos sempre inventando novas tecnologias que supostamente nos ajudarão a "salvá-lo". Criamos todo tipo de novo veículo terrestre, aéreo ou marítimo para que possamos ir de um lugar para outro em menos tempo. Mas, muitas vezes esquecemos que o tempo também é a vida.

Vemos ciclos de tempo. A Terra gira sobre seu eixo e nós o chamamos de um dia. Ela faz uma volta completa em torno do Sol e chamamos isso de um ano. Podemos medir o tempo, mas seus segredos mais profundos nos escapam.

Há uma história sobre um turista rico que visitava uma aldeia de pescadores na Amazônia. Ele tentou convencer um pescador de contratar mais pessoas para ajudá-lo.

A conversa foi assim:

Pescador(P) - Por que eu iria fazer isso?
Turista(T) - De modo que você pode pegar mais peixe.
P - Por que eu iria fazer isso?
T - Então, você poderia ganhar mais dinheiro para investir em sua atividade, talvez comprar mais alguns barcos.
P - Por que eu iria fazer isso?
T - Com mais dinheiro você poderia ter algum tempo para relaxar.
- Mas eu já estou relaxado. Por que eu iria querer mais algum tempo?
- Então você poderia fazer o que faço. Durante um mês a cada ano eu me dedico à pesca e deixo todos os meus problemas para trás.
P - Mas eu já estou pescando ...

Você pode ver para onde a história está indo.

O mistério do tempo tem nos assombrado ao longo da história, ao ponto de termos uma relação ambígua com ele. Queremos salvar o tempo, tanto quanto pudermos, mas quando o temos disponível, será que sabemos realmente como fazer o melhor uso dele? Trabalhamos como loucos durante o dia pensando sobre o tempo que teremos para relaxar à noite. Lutamos durante a semana para desfrutar do nosso fim de semana. Nos matamos durante o ano para desfrutar das nossas férias anuais e do nosso merecido descanso. Os anos passam e começamos a planejar nossa aposentadoria, que passa mais rapidamente do que queremos. A velhice traz doença e, finalmente, a morte do corpo acontece. Assim, achamos que nosso tempo acabou. Mas, será?

Compreender o tempo a partir da perspectiva de ser uma alma eterna, desempenhando um papel neste enorme palco do mundo, nos leva a um nível diferente de percepção, no qual o tempo se torna tão importante como a nossa consciência. A vida é uma mistura feliz de ambos.

Trecho de um livro que está para sair. Aguardem:
O Carrossel do Tempo, por Ken O'Donnell

Video "Deep Meditation Experience"


Link para o video em alta resolução. 

6 de novembro de 2015

O custo invisível de conflitos


Há conflitos de todo tipo entre seres humanos. Nesta época de pânico e confusão por causa da crise financeira, eles se tornam mais exacerbados que nunca. Se conflito pode ser definido pelo atrito que acontece quando duas ou mais pessoas ou grupos tentam ocupar o mesmo ‘espaço’ ao mesmo tempo, a possibilidade que isto aconteça neste momento atual de caos, é muito grande.
Este ‘espaço’ pode ser físico no caso de duas pessoas com pressa tentarem pegar o último taxi no ponto. Pode ser emocional quando as partes envolvidas querem possuir as mesmas terras históricas. Pode ser uma briga por incompatibilidade psicológica entre posições, avaliações, interpretações ou ideologias. E geralmente custa caro.
Com tudo que passa, os pavios curtos estão soltos e levam a disfunções nas nossas organizações. Os contatos entre pessoas se tornam mais estressantes e as regras de convivência ficam menos claras. Os relacionamentos, a produção, os planos, os clientes e consumidores e por fim a sociedade e o meio-ambiente – todos sofrem.
Pelo fato de que os conflitos façam uma parte central do convívio humano desde o começo da história registrada pelo menos, dificilmente encontraríamos alguém que nunca tivesse sofrido prejuízo pessoal por causa deles. O problema não são os conflitos em sí mas como os percebemos e lidamos com eles. Bem compreendidos e trabalhados, eles são propulsores de mudanças positivas e necessárias. Se não, podem causar grandes perdas e atrasar nossos melhores planos a pesar das intenções nobres. Frequentemente, não é a melhor idéia que prevalece, mas o ego mais forte ou melhor amparado.
No contexto de empresas, a lista de vítimas de conflitos é grande - oportunidades de negócios perdidas, separação de sócios, desmotivação, alta rotatividade de pessoas, mau atendimento a clientes e eventualmente sabotagem, litígio, assédio e até agressão séria. Dizem que as pessoas não deixam empresas quando pedem as contas. Deixam chefes ou colegas intragáveis.
Pela velocidade alucinante das mudanças e pela defasagem entre o que sabemos fazer o o que temos de fazer,ficamos sem o tempo necessário para compreender e administrar os conflitos no dia-a-dia. A falta de tempo também nos remete a um tratamento superficial e sintomatico dos conflitos sem ir para suas causas verdadeiras. Isso leva a maioria a simplesmente fingir que não acontecem, tentar fugir deles ou abafá-los com os famosos 'panos quentes'. As situações que os conflitos não-resolvidos produzem, perduram e crescem como um cáncer sútil organizacional.

As pessoas realmente só tentam resolvê-los quando são difíceis e caros demais para solucionar. 
Como disse o poeta americano Ralph Waldo Emerson “Só estudamos a geologia depois do terremoto”. O único problema é que o terremoto já causou seus danos.
Quase sempre, os perdedores maiores de conflitos grandes entre interesses econômicos, governos e tradições religiosas são a sociedade e o meio-ambiente. Milhões de pessoas comuns alimentam com suas vidas as guerras e pobrezas causadas pelas intransigências dos políticos As espécies continuam desaparencendo, as floresta minguam e os céus se tornam mais negras e o clima mais quente – muitas vezes pelos embates e degladiações dos ‘líderes’ que não querem ou não podem chegar aos acordos necessários para um mundo sustentável.
Os benefícios que surgem da compreensão para prevenir e lidar com conflitos de uma forma sistêmica são enormes. O lado bom é que conflitos deixam às vistas exatamente os problemas que precisam ser resolvidas e frequentemente apontam às pessoas que precisam entrar, sair ou mudar de lugar na organização.
Imagine uma espécie de ‘egômetro’ na sua empresa capaz de medir o custo de egos exacerbados e seu efeito nos números mensais. Os conflitos definitivamente impactam no balanço. O problema é que são difíceis de medir e portanto ignorados em nome da racionalidade.
Devemos sempre procurar compreender as complimentaridades escondidas nas aparentes incompatibilidades. Há uma história do temor que um rei do atual estado de Gujarat (costa oeste da Índia) tinha quando grandes contingentes de ‘parsis’ chegaram vindo da atual Iran. Eles eram praticantes da religião de Zoroastrianismo (adoradores de fogo) expulsos pelos muçulmanos.
Para mostrar que não havia espaço para dividir com tanta gente, ele mandou um copo grande de leite completamente cheio. A resposta do líder dos parsis foi devolver o copo acrescentado de um pouco de açucar com a mensagem:‘Podemos conviver como leite e açucar’. Assim tem sido até hoje. Não é uma má idéia.

8 de outubro de 2015

Navegando bem no mar dos relacionamentos (2)


Em um post anterior eu escrevi sobre o comércio emocional que acontece nos relacionamentos íntimos. Nós medimos uns aos outros por aquilo que damos ou recebemos. Um dos aspectos que faz com que um verdadeiro intercâmbio de bons sentimentos mútuos seja difícil é a tendência quase onipresente de ver defeitos. Três pessoas estão falando e uma delas vai embora. Os dois que permanecem imediatamente falam sobre quem? Geralmente, sobre aquele que acabou de sair e nem sempre de uma forma cortês.
Certa vez uma mulher me procurou depois de uma palestra pública em São Paulo para perguntar sobre como resolver o problema que estava tendo com seu marido. Nossa conversa foi mais ou menos assim:
- Eu realmente não sei o que fazer com o meu marido. Ele está indo só para o brejo. Ele fica irritado em troca de nada. É muito difícil falar com ele. Ele só me corta. Ele é ... (aqui ela começou a recitar uma lista grande de seus defeitos.)
- Você já tentou falar com ele?- Centenas de vezes! Ele simplesmente não me escuta. Estou realmente preocupada. Ele pode  ter um enfarto a qualquer momento. Às vezes eu acho que ele já está com um pé na cova.
- Ele não pode ser tão terrível assim. Será que ele tem não nenhuma virtude?(Aqui ela ficou em silêncio antes de responder, como se para mostrar que era algo que não estava acostumada a fazer.) Deixe eu pensar. Estou com ele há trinta anos. Ele costumava ser muito generoso e amoroso, mas faz muito tempo que eu não vi sinais disso.
- Você realmente falou com ele sobre isso centenas de vezes?- Não exatamente. Para dizer a verdade, apenas cinco ou seis.
- Você acha que, ao focar-se em seus defeitos, você está ajudando-o a mudar?- Provavelmente que não.
- Vamos dizer que ele esteja fazendo esforço para mudar seu estado terrível. Imagine que ele também tenha se matriculado em um curso de meditação. Ele revelaria este esforço para voce?- Provavelmente que não.
(Aqui eu dei uma imagem que ela não iria esquecer.) Você diz que ele tem um pé na cova. Imagine que ele esteja deitado em um caixão tentando sair. Você sabe onde sua atitude de só ver seus defeitos coloca você? Sentada na tampa!Ela deu um pequeno salto e disse:
- Oh meu Deus do céu! O que devo fazer para ajudá-lo então?- Não significa que você não vai estar ciente de seus defeitos. Mas você tem de treinar-se para ver suas virtudes por detrás deles; é como ver diamantes na forma bruta por entre as pedras.
Nós conversamos um pouco mais e ela partiu determinada a mudar sua atitude.
Este é provavelmente o aspecto mais importante de ser capaz de viver e trabalhar com outras pessoas. Se eu quero que eles melhorem, a última coisa que eu deveria fazer é um rosário de seus defeitos e repeti-los para mim mesmo e para os outros. Eu deveria me enfocar me nas suas especialidades.
A afirmação famosa vem à mente:
Onde vai a atenção, a energia flui.
Onde flui a energia, a vida cresce.

Se eu der atenção a defeitos dos outros, eu os ajudo a cultivá-los não só neles, mas em mim mesmo.
Uma vez eu estava passeando pelas ruas de Budapeste e, apesar de poder ler as placas e outdoors,  eu não sabia o que significavam. (Húngaro é uma das cerca de cem línguas que usa letras romanas igual ao português.)
Da mesma forma, só posso identificar e pensar sobre o significado de defeitos, se eu também "falar a língua deles”. O desafio é ser capaz de se concentrar nas virtudes dos outros, apesar de estar ciente dos seus defeitos. Isto ajuda as pessoas e a mim também. Afinal, nas profundezas da alma, eu também falo a língua de virtudes.

28 de agosto de 2015

Navegando bem no mar dos relacionamentos

 

Conexão e comunicação

Eu tenho um novo notebook que tem apenas uma conexão micro HDMI para a apresentação de vídeo. O projetor que estava disponível para um retiro recente sobre o tema deste post era velho e contava com apenas um conector VGA. Eu tinha um adaptador, mas simplesmente não conseguia fazê-lo funcionar. Um problema de conexão e comunicação. Coincidência? Como interagimos e como nos comunicamos são exatamente os dois campos que definem a qualidade de qualquer relacionamento. Embora a maioria das pessoas havia vindo para o retiro para entender como consertar ou fortalecer o relacionamento com seus esposos ou namorados, o tema foi muito mais amplo.

Existem quatro relações básicas:
  • Comigo
  • Com os outros
  • Com o mundo em torno de mim
  • Com Deus

Eu comigo

De certa forma eles estão todos conectados e todos começam comigo. Como eu entendo meu eu interior e aprecio quem eu realmente sou, determina todo o resto. Se eu não for capaz de criar um senso de valor interior que permanece relativamente constante, não importa o que aconteça, isso acaba afetando a forma como me relaciono com os outros, com o mundo e com Deus. Em termos simples, se eu não amo a mim mesmo eu não posso amar os outros, o mundo ou até mesmo Deus.
Então, como posso me conectar com meu eu profundo?
Enterrado sob o turbilhão de pensamentos, sentimentos, memórias e apreensões confusos que geralmente compõem o nosso estado de consciência superficial, existe o que pode ser chamado de fundação do eu. Ela é composta por algumas qualidades básicas, tais como amor, paz, felicidade, verdade e pureza. Se eu remover todas as associações que brotam da minha identidade física - idade, sexo, cultura, religião, origem social e educação - este eu original que sou ainda assim existe, como um ser espiritual com as qualidades acima. Devido a não ter conhecimento deste segredo profundo ou não ter o poder de expressar essas qualidades de maneira constante, eu as procuro nos outros e no mundo. Aí o dilema. Eu desejo e espero a paz, o amor e a felicidade dos outros e do mundo  quando eu já as tenho em mim mesmo. Por alguma razão que desconheço, eu não consigo acessá-las. Não importa o que as pessoas ou as coisas façam, o resultado final é que estas não podem compensar o amor, a paz e a felicidade que eu fui incapaz de me dar. Quando qualquer relacionamento é motivado por essa falta de satisfação interior, ele nunca pode realmente funcionar por muito tempo.

Codependência

Vemos uma típica relação de codependência entre duas pessoas. O acordo tácito é: “Eu vou te amar, se você me amar. Você infla o meu ego, eu vou aumentar o seu. Se não, cuidado”. Cada lado acha que o outro precisa ser uma espécie de fonte constante de amor, paz e felicidade, quando nenhum dos dois é. A base de um relacionamento sólido e de longo prazo é o dar, e não o tomar ou o tentar tomar. Mesmo assim, não é apenas uma questão de dar. É dar sem contar o que eu dou. "Eu dei pelo menos dez exemplos de quanto eu amo você nos últimos seis meses. Você não me mostrou nenhum. Não é justo!"
Entretanto, não são apenas os episódios de amor e respeito para os quais mantemos um registro. Todos os tipos de ações estão sob o escrutínio de ambos os lados.
Outra conversa típica entre dois codependentes:
- Quantas vezes eu lhe disse para não me interromper quando eu estou falando para os outros?
- Mas você faz exatamente a mesma coisa comigo. Eu não posso contar as vezes que você já fez.
- Eu odeio quando você tenta me controlar.
- Mas não é isso que você faz comigo o tempo todo?
- Etc. etc.
Este tipo de comentário ou pensamento permeia os relacionamentos codependentes. Em vez do amor genuíno e incondicional, há uma espécie de comércio emocional. O amante e o amado se tornam contadores de ações um do outro. A compreensão e a compaixão tornam-se reféns do jogo de ganhar ou perder do ego.

Um pé na cova

Depois de uma palestra em São Paulo uma vez, uma mulher veio até mim para reclamar sobre o marido - que ele não era bom, que demonstrava um comportamento estranho nos seis meses anteriores, que ela tinha falado com ele "centenas" de vezes sem resultado, que a forma como ele estava indo, provavelmente morreria e assim por diante. Perguntei-lhe se ele, por acaso, tinha quaisquer virtudes. Ela hesitou por um bom tempo antes de dar uma resposta. Esse silêncio provavelmente significava que ela não tinha pensado sobre suas virtudes por meses ou mesmo anos. Perguntei-lhe se a sua visão constante de defeitos do marido o ajudava ou o prejudicava. Ela respondeu que claro que não iria ajudá-lo. Então eu deixei com ela uma metáfora poderosa: "Imagine que seu marido esteja fazendo um esforço incrível para melhorar. É como se ele estivesse deitado em um caixão tentando sair. E lá você está sentada na tampa! "Ela deu um pequeno sobressalto quando ouviu isso. Quando esta ficha caiu, ela realmente me agradeceu por ter lembrado como nossa visão pode ajudar os outros a mudarem ou pode condená-los a nunca sairem do seu patamar.
Não é fácil navegar no mar de relacionamentos, especialmente com outras pessoas que ocupam as mesmas "rotas marítimas". Mas meu pensamento pode tornar o viver e o trabalhar com outras pessoas mais fácil ou mais difícil.
(a ser continuado...)

30 de julho de 2015

Não mate o ego, limpe-o (Parte 3)


Na canção popular, 'Modinha para Gabriela', de Dorival Caymmi e cantada por Gal Costa, é dito:Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou sempre assimVou ser sempre assim, Gabriela, sempre Gabriela
No meu último post sobre não matar o ego, eu compartilhei sobre as limitações de olhar o mundo através do buraco de uma fechadura. Com desculpas a qualquer leitora que se chame “Gabriela”, vou usar aqui o exemplo desta canção. Pelas palavras, fica claro que ela está presa em sua identidade de Gabriela - o que provavelmente inclui seu corpo, seus papéis e, mais definitivamente, a sua história. Ela está tão encerrada na idéia de “ser” Gabriela que nem acredita que pode mudar.
Às vezes ficamos tão absortos em nós mesmos, que não conseguimos enxergar além das nossas próprias limitações. Lembro que uma vez, eu estava me preparando para uma apresentação e quando mexia com o projetor, uma mulher participante do curso me perguntou se poderíamos ter uma conversa sobre algo pessoal. Eu disse a ela que eu estava ocupado, mas que ficaria muito feliz em sentar com ela durante o intervalo. Aparentemente ela não me ouviu e começou a me contar sua história. Depois de algum tempo, eu a interrompi e disse que não estava ouvindo porque realmente precisava terminar o que estava fazendo. Então, mais uma vez eu disse que iria encontrá-la durante o intervalo. Ela continuou falando por mais cinco minutos enquanto eu continuava a fazer o que eu estava fazendo. Finalmente, ela me agradeceu por conceder-lhe aquele tempo e foi embora. Eu não tinha idéia do que ela estava falando. Quando me encontrei com ela no intervalo, perguntei se ela queria falar comigo naquele momento. Ela disse que estava tudo bem, uma vez que já tinha falado comigo mais cedo de manhã. Então ocorreu-me o quanto podemos estar tão absortos em nossas histórias, a ponto de não perceber o que está acontecendo ao nosso redor. (Ela falou dez minutos sem perceber que eu estava fazendo outra coisa!)Quando nós nos enfiamos em uma identidade, caracterizada pela canção acima, o ego tipo-Gabriela filtra tudo.Se houver ofensa, Gabriela é a ofendida. Se houver insegurança, Gabriela se perde no jogo de se comparar com os outros, de comparar seu presente com seu passado e o presente com uma série de possíveis futuros fantasiados. Ela tende a ver os defeitos dos outros à luz de suas próprias virtudes e suas virtudes, à luz da sua falta delas. Ela precisa “estar certa” a maior parte das vezes, de modo a satisfazer o seu próprio senso de ser Gabriela.O diagrama mostra o que precisamos fazer para mudar a autoreferência constante para os nossos próprios egos tipo Gabriela.Há três elementos que precisamos introduzir em nossas conversas internas:
  1. Eu sou o ser espiritual - energia consciente ou alma - e eu tenho um corpo. Ele é meu instrumento para expressar o que está em mim e experimentar o resultado dessa expressão. Esta consciência abre a porta para perceber outros como almas e até mesmo de intuir as dimensões além desta dimensão física. Afinal, se sou uma energia espiritual - e não a minha forma material - há outras questões a considerar.Se eu não sou matéria, então, eu não vim dela. O lugar que tentamos chegar na meditação ou oração e que é lembrado em todas as tradições religiosas - o céu ou nirvana - é uma dimensão de luz, o lar das almas.
  2. Eu sou o ator e eu tenho diversos papéis relacionados com a família, profissão, interações sociais e até mesmo cultura, religião e nacionalidade. Eu sou um e os papéis são muitos. Se eu tiver essa consciência, posso administrá-los melhor. Quando estou com minha família, desempenho papéis de família. No trabalho, eu coloco esses chapéus específicos e faço o que tenho de fazer. Partindo de uma identidade sólida, eu posso controlar melhor meus pensamentos e sentimentos relacionados a cada função. Posso ver que cada ser humano é um ator nesta peça da vida. Eu não posso controlar os  papéis de qualquer outra pessoa. Tenho apenas que prestar atenção aos meus próprios, para entender como harmonizar com os dos outros.
  3. Eu não sou a minha história. Eu sou o protagonista dela. Em um determinado momento durante aa gravidez de minha mãe, eu vim para o útero e comecei a dar vida ao meu corpo minúsculo. Em outro momento futuro, vou deixá-lo. Desta forma, eu posso entender que tenho existido antes desta vida e, mesmo depois também, eu, a alma, vou continuar uma história maior. A história desta vida é apenas um capítulo de um livro. Quando eu uso essa perspectiva, eu posso começar a usar o meu potencial inexplorado para fazer mudanças no curso desta vida.
Utilizando estas três formas poderosas de consciência, podemos realmente mudar a forma como interagimos neste mundo, através das coordenadas do ego limitado - corpo, papéis e história. Deste modo, não precisamos matar o ego (o que de fato significaria matar essas três formas). Temos que aprender a operar melhor através dele sem negar sua importância.

29 de junho de 2015

Não mate o ego, limpe-o (Parte 2)




Como comentei no post anterior, o ego não é o inimigo do empenho  espiritual. A questão está em como o usamos.

A noção popular de ver o mundo através de óculos coloridos é apenas uma parte da história. Muitos factores contribuem para a cor e o formato da lente. Estes reduzem, exageram ou mesmo alteram completamente a forma de como vemos as coisas. Nossas emoções, experiências, preferências e hábitos se juntam no que chamamos de “ego limitado” e nos fazem crer que o que vemos e lembramos realmente existe como tal.

Um rapaz chamado Tony costumava frequentar nosso centro de meditação. Apesar de seu entusiasmo e progresso altos, sua esposa estava de alguma forma contra sua participação no centro. Ele tentava aparecer nos momentos em que sabia que não iria aborrecê-la. Finalmente, ele a convenceu de encontrá-lo no centro depois do trabalho e explicar exatamente o que estava fazendo. A esposa chegou antes e enquanto o esperava, ela ouviu uma conversa entre duas mulheres na sala do lado. Elas estavam falando sobre os doces que tinham preparado no dia anterior.

Disseram: Você viu o quanto as pessoas gostavam do toli ontem? (Toli significa “doce” em Hindi.)

O que a esposa ouviu: Você viu o quanto as pessoas gostavam de Tony ontem?

Assim que Tony chegou, ela pulou em cima dele:

- Você não disse que tinha que visitar cidades vizinhas ontem? Eu acabei de descobrir que você estava aqui divertindo as pessoas.

- O quê? Eu não poderia ter estado aqui. Passei o dia inteiro visitando clientes.

- Não minta para mim. Vamos sair daqui.

Nós não vemos qualquer um deles novamente. Depois de cerca de três meses ele me ligou e lhe perguntei o que tinha acontecido. Ele explicou que tinha esclarecido o mal-entendido da palavra toli. Perguntei se ele queria recomeçar sua prática de meditação. Ele se recusou dizendo que eles ficaram muito envergonhados por tudo aquilo para retomá-la. Isto mostra como o ego limitado sob a forma de ciúme distorce e até mesmo muda o curso dos acontecimentos.

O ego, girando em torno de seus próprios interesses e associações, cores, formas, até mesmo posiciona a lente da percepção de acordo com seus caprichos. Quando a lente é limitada, é como olhar para a realidade através do pequeno buraco de uma fechadura. Isso é mostrado no diagrama acima:

Os primeiros redutores de nossa perspectiva são os sentidos físicos. Nós percebemos apenas cerca de 3 por cento do espectro eletromagnético. Não podemos ver nada antes do vermelho e depois do violeta. Os cães podem ouvir e cheirar melhor que podemos. Muitos insetos e pássaros conseguem navegar devido a uma memória espacial como um mapa, melhor do que muitos seres humanos. Os morcegos se orientam usando o sonar. Imagine-se, por exemplo, se pudéssemos "enxergar" as vibrações das pessoas. As vantagens seriam enormes. Em essência, o mundo que vemos, ouvimos e tocamos não é todo o mundo que existe.

Em segundo lugar, estamos limitados devido à consciência dos papéis que temos de desempenhar. Isto torna-se natural, devido ao hábito. A mãe vê seus filhos como a mãe. Um chefe vê sua equipe como o chefe. Em outras palavras, as tarefas e responsabilidades pressionam os papéis de modo que percebemos as coisas praticamente só a partir dessa perspectiva. Colocamos o chapéu da nossa identidade habitual e muitas vezes não conseguimos ver além disso. Isso se estende a aspectos culturais - raça, nacionalidade, religião e assim por diante. Como seres espirituais que estão representando papéis através das coordenadas de nossa identidade física, não somos os nossos papéis, somos os atores.

O terceiro fator limitante é a nossa própria história. Nós carregamos a memória de tudo o que passamos na infância, adolescência, juventude e outras épocas mais adultas. Todos os eventos e as experiências que tiramos deles, se amutuam nessa pequena janela de percepção. A objetividade torna-se impossível enquanto tomamos a maioria de nossas experiências de forma pessoal. Muitos de nós é como se tornassem CVs ambulantes interagindo com outros CVs.

Por todas as razões acima, é uma algo especial quando percebemos a mesma coisa, da mesma maneira, como uma outra pessoa. Mais uma vez, o problema não é esta lente do ego, mas quão aberta ela é para enxergar a realidade em todo seu esplendor.

Quando há um senso ilimitado do eu, toda a porta fica aberta. Podemos ver as coisas como elas realmente são.

(Mais sobre a abertura desta porta no próximo post).