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29 de junho de 2015

Não mate o ego, limpe-o (Parte 2)






Como comentei no post anterior, o ego não é o inimigo do empenho  espiritual. A questão está em como o usamos.

A noção popular de ver o mundo através de óculos coloridos é apenas uma parte da história. Muitos factores contribuem para a cor e o formato da lente. Estes reduzem, exageram ou mesmo alteram completamente a forma de como vemos as coisas. Nossas emoções, experiências, preferências e hábitos se juntam no que chamamos de “ego limitado” e nos fazem crer que o que vemos e lembramos realmente existe como tal.

Um rapaz chamado Tony costumava frequentar nosso centro de meditação. Apesar de seu entusiasmo e progresso altos, sua esposa estava de alguma forma contra sua participação no centro. Ele tentava aparecer nos momentos em que sabia que não iria aborrecê-la. Finalmente, ele a convenceu de encontrá-lo no centro depois do trabalho e explicar exatamente o que estava fazendo. A esposa chegou antes e enquanto o esperava, ela ouviu uma conversa entre duas mulheres na sala do lado. Elas estavam falando sobre os doces que tinham preparado no dia anterior.

Disseram: Você viu o quanto as pessoas gostavam do toli ontem? (Toli significa “doce” em Hindi.)

O que a esposa ouviu: Você viu o quanto as pessoas gostavam de Tony ontem?

Assim que Tony chegou, ela pulou em cima dele:

- Você não disse que tinha que visitar cidades vizinhas ontem? Eu acabei de descobrir que você estava aqui divertindo as pessoas.

- O quê? Eu não poderia ter estado aqui. Passei o dia inteiro visitando clientes.

- Não minta para mim. Vamos sair daqui.

Nós não vemos qualquer um deles novamente. Depois de cerca de três meses ele me ligou e lhe perguntei o que tinha acontecido. Ele explicou que tinha esclarecido o mal-entendido da palavra toli. Perguntei se ele queria recomeçar sua prática de meditação. Ele se recusou dizendo que eles ficaram muito envergonhados por tudo aquilo para retomá-la. Isto mostra como o ego limitado sob a forma de ciúme distorce e até mesmo muda o curso dos acontecimentos.

O ego, girando em torno de seus próprios interesses e associações, cores, formas, até mesmo posiciona a lente da percepção de acordo com seus caprichos. Quando a lente é limitada, é como olhar para a realidade através do pequeno buraco de uma fechadura. Isso é mostrado no diagrama acima:

Os primeiros redutores de nossa perspectiva são os sentidos físicos. Nós percebemos apenas cerca de 3 por cento do espectro eletromagnético. Não podemos ver nada antes do vermelho e depois do violeta. Os cães podem ouvir e cheirar melhor que podemos. Muitos insetos e pássaros conseguem navegar devido a uma memória espacial como um mapa, melhor do que muitos seres humanos. Os morcegos se orientam usando o sonar. Imagine-se, por exemplo, se pudéssemos "enxergar" as vibrações das pessoas. As vantagens seriam enormes. Em essência, o mundo que vemos, ouvimos e tocamos não é todo o mundo que existe.

Em segundo lugar, estamos limitados devido à consciência dos papéis que temos de desempenhar. Isto torna-se natural, devido ao hábito. A mãe vê seus filhos como a mãe. Um chefe vê sua equipe como o chefe. Em outras palavras, as tarefas e responsabilidades pressionam os papéis de modo que percebemos as coisas praticamente só a partir dessa perspectiva. Colocamos o chapéu da nossa identidade habitual e muitas vezes não conseguimos ver além disso. Isso se estende a aspectos culturais - raça, nacionalidade, religião e assim por diante. Como seres espirituais que estão representando papéis através das coordenadas de nossa identidade física, não somos os nossos papéis, somos os atores.

O terceiro fator limitante é a nossa própria história. Nós carregamos a memória de tudo o que passamos na infância, adolescência, juventude e outras épocas mais adultas. Todos os eventos e as experiências que tiramos deles, se amutuam nessa pequena janela de percepção. A objetividade torna-se impossível enquanto tomamos a maioria de nossas experiências de forma pessoal. Muitos de nós é como se tornassem CVs ambulantes interagindo com outros CVs.

Por todas as razões acima, é uma algo especial quando percebemos a mesma coisa, da mesma maneira, como uma outra pessoa. Mais uma vez, o problema não é esta lente do ego, mas quão aberta ela é para enxergar a realidade em todo seu esplendor.

Quando há um senso ilimitado do eu, toda a porta fica aberta. Podemos ver as coisas como elas realmente são.

(Mais sobre a abertura desta porta no próximo post).

28 de maio de 2015

Não mate o ego, limpe-o (Parte 1)



(Este é o primeiro post de 3)
Dizem que uma pessoa arrogante se afoga numa tempestade de chuva, porque seu nariz se enche de água. Arrogância não é o ego, mas pode ser. Explico.
"O ego é o inimigo do crescimento espiritual".
Por muitos anos, eu acreditava nisso. Para mim e vários outros, pensava que um dos principais objetivos da prática espiritual era superá-lo. Apesar de esforço aplicado, eu não parecia chegar a lugar nenhum. Era como bater água e tentar criar manteiga. Um belo dia, tive um daqueles insights de mudança de paradigma. Não era uma questão de anular o ego. Tinha que simplesmente elevar a sua função.
Na melhor das hipóteses, o ego é apenas um conjunto de coordenadas que nos ajudam a navegar pela vida. Estes parâmetros, dentro dos quais o ego opera, são essenciais para a vida cotidiana. Imagine se tivéssemos que recriar a consciência dos nossos nomes, formas, endereços, gêneros, idades, profissões e relações todos os dias. Com compreensão e poder espiritual, o ego pode ser um grande agente entre nosso eu mais profundo e a realidade que se forma a nossa volta.
Na pior das hipóteses, é claro, o ego cria uma outra história. Inflacionado ou deflacionado por um senso distorcido de importância ou a falta dela, ele gera prejuízos para nós e outros. Quando a consciência "Eu sou fulano, assim e assado" levanta seu nariz para chamar a atenção, outros egos se embaralham resmungando ou murmurando, reagindo ativa ou passivamente conforme perseguem seus próprios interesses.
Se buscamos um objetivo egoísta, podemos perguntar por que outros egos não cooperam conosco. A resposta é óbvia. Cada ego limitado só pode alcançar até o limite de sua projeção. O egoísmo é apenas o ego limitado cuidando de seu próprio pequeno mundo, onde ninguém vive, apenas visita. A vida passa a ser na maior parte, egos visitando outros egos - um fluxo constante de trocas entre os mundinhos e entendimentos de cada um. Populamos nossas cabeças com outros, sem perceber que a nossa versão de todos eles e, provavelmente, de nós mesmos, só existem como algo filtrado por nossos próprios egos.
Em grego, a palavra ego significa apenas Eu. Foi provavelmente Freud que ortogou ao ego conotações mais amplas, em seu modelo estrutural da psique. Ele descreveu o ego como o mediador entre as motivações desordenadas do eu (o id) e a força ainda mais profunda moralizante que ele chamou de super-ego. Aí reside o problema. No seu papel de interface com a realidade, muitas vezes ele age como um lobo no comando das galinhas. É por isso que o ego se tornou sinônimo de arrogância.
Se o ego soubesse de sua função e trabalhasse para o benefício a longo prazo do eu e das outras pessoas ligadas, seria elogiado por todos. Guiado pela influência das nossas qualidades espirituais inatas e sabedoria, esse senso do eu verdadeiro serviria ao todo ao invés de apenas si mesmo. Infelizmente, ele tem sido mal interpretado e até mesmo execrado pelos puristas e moralistas de toda espécie. Esta foi a minha grande descoberta. Eu não tinha que matar o ego. Só quebrar suas limitações e 'purificar' a sua função. Para isso, eu precisava de um sentido mais preciso da identidade. Foi a hora do verdadeiro 'eu' se levantar.
Através do meu estudo e prática da Raja Yoga eu tenho experimentado que existem basicamente dois "pólos" em que vivemos e operamos. Um gira ao redor da entidade espiritual permanente chamada alma e outro em torno da identidade física temporária - nossos corpos, papéis e "histórias" individuais. O contraste entre o que podemos chamar de consciência da alma e consciência do corpo é mostrado no diagrama a seguir:



O desenvolvimento espiritual significa limpar os filtros do senso de eu que chamamos ego. Ao fazer isso, vemos o mundo e os outros como eles realmente são e deixamos para trás nossas versões distorcidas. Esta é a liberdade que tenho procurado. Eu ainda estou trabalhando nisso.

18 de maio de 2015

Quem nos dá o 'direito' de perder a calma? (Parte 2)


No meu post anterior, eu compartilhei sobre como concedemos a nós mesmos o direito de ficarmos irritados. Ninguém mais faz isso por nós. A  "raiva justificada", que nos acompanha tornou-se de tal forma incorporada em nossa cultura que quase ninguém questiona isso. Ninguém nem aprecia seus próprios aborrecimentos, muito menos os dos outros. É simplesmente aceito como parte da escola de pensamento que "errar é humano". Nem mesmo acreditamos que é possível mudar o que é realmente apenas um hábito profundamente arraigado.
Se assistimos um filme esperamos automaticamente que o vilão perca tudo, que seja morto ou ferido. Se vemos alguém que está sendo tratado injustamente desejamos que eles consiga devolver o troco. Celebramos internamente a derrota dos nossos inimigos, enquanto murmuramos palavras de comiseração. Em geral, há muitos fatores, do passado, presente e futuro que contribuem para qualquer situação. Uma mera leitura superficial não irá revelar as verdades mais profundas que cercam os fatos aparentes. Compreendê-los nos ajudaria a responder com mais calma.
Há uma história que circulava há vários anos sobre um pai e seus três filhos em um trem suburbano em Long Island, Nova York. Ele estava sentado cabisbaixo e triste, totalmente inconsciente de que seus filhos estavam correndo para lá e para cá no corredor aprontando todo tipo de travessuras. Como as pessoas estavam voltando para casa do seu longo dia de trabalho, elas só queria um pouco de paz e tranquilidade para cochilar ou ler.
Os primeiros sinais de irritação apareceram no murmúrio de comentários negativos entre os passageiros. Aos poucos, alguns elevaram seu tom de voz: "Você não pode dar um jeito para controlar essas crianças?" Mas, nem o pai nem os filhos davam a menor atenção. Elas começaram a correr e pular ainda mais.
Finalmente, a mulher atrás dele bateu agressivamente na parte de trás de seu assento com sua guarda-chuva. "Senhor, por favor, faça algo com seus filhos. Você não percebe que estamos extremamente incomodados?"
Ele se virou tristemente e respondeu: "Eu realmente sinto muito, senhora. Acabamos de sair do hospital. Minha esposa morreu esta tarde. Estou um pouco perdido e não sei o que fazer."
A mulher então, anunciou aos outros passageiros o que tinha acontecido. Imediatamente eles se juntaram às crianças e começaram a brincar com elas.
De maneira semelhante, há circunstâncias atenuantes em torno de muitas das coisas que nos incomodam. O problema é que não enxergamos as necessidades dos outros, apenas as nossas próprias.
A indignação é apenas o ego com um halo. O ego finge ser tudo, mas não traz nada a não ser o incomodo.

11 de maio de 2015

Quem nos dá o 'direito' de perder a calma? (Parte 1)


Ninguém gosta quando um outro perde sua calma. Tentamos fugir para longe de seus gritos ou resmungões. Este 'direito’ de perder a calma é sempre cedido pela própria pessoa a ela mesma. Ela não pede a permissão para ficar transtornada ou chateada. Quando é a nossa vez de expressar o descontentamento assim, esquecemos convenientemente o impacto que isso teria em outros.

Crescemos neste mundo complexo acreditando que temos este ‘direito’ diante de qualquer cena da peça da vida que não gostamos. Alguém de repente corta na nossa frente no trânsito; esperamos uma hora por um amigo e ele não aparece; não nos qualificamos para algo, apesar de meses de preparação; alguém nos insulta, direta ou indiretamente ... a lista é grande. Nos defendemos rapidamente em qualquer situação que desafia as ilusões do ego e paradoxalmente saimos correndo quando outro se comporta do mesmo jeito.

Mesmo sabendo que vivemos em um mundo onde tudo pode acontecer a qualquer um a qualquer momento, não precisamos ficar abalados com tanta facilidade. Mesmo assim, o problema é quando esse 'direito' é aliado a uma natureza sensível ou ao perfeccionismo. Tanto os que têm uma natureza como a da flor não-me-toque, como os prepotentes não percebem a insatisfação que geram nos outros. Andamos em cacos de vidro com os sensíveis e fugimos dos prepotentes, enquanto estes ficam perplexos porque não são tão bem-quistos.

Uma vez um amigo me disse que foi criado por uma tia que era tão perfeccionista que nunca estava satisfeita com a própria casa. Uma parte ou outra estava permanentemente em reforma. Quando ela morreu, ainda estava reformando. Mesmo que ela pudesse derrubar paredes e mudar pedaços inteiros da casa de um lado ao outro, nas partes que estavam 'prontas', ninguém podia mover qualquer coisa, mesmo por um centímetro. O ousado que fizesse isso, estaria imediatamente sujeito a uma palestra irada dela, sobre suas mãos sujas ou a proibição de tocar em qualquer objeto. Todos os visitantes já sabiam que só poderiam ir lá sob risco de ouvir gritos desagradáveis. Ela tinha todos os ‘direitos’ e todos os outros nenhum. Na Índia, eles dizem que este tipo de raiva doméstica seca os vasos. Certamente, havia muitas flores murchas naquela casa! Até hoje, este amigo tem dificuldades grandes em lidar com pessoas que exibem traços de autoritarismo.

Depois de ouvir a história, pensei sobre como seria bom se pudéssemos ter esse grau de atenção em nosso estado interior, como esta tia tinha em sua casa física. Pensamentos limpos seriam naturais. A aprendizagem correta produziria as reformas necessárias do nosso caráter. Tudo estaria em seu lugar. Não haveria sequer a vontade de ficar chateado.

Uma das principais experiências que tenho recebido da minha prática de meditação raja yoga é que quando estou mais alinhado (set em inglês) internamente com as minhas qualidades inatas, torna-se muito difícil ficar chateado (upset). Não é só uma questão de ter a vontade de evitar ficar chateado. É necessária uma estabilidade interna de verdade.

Curiosamente, a palavra ‘chateado’ em hindi é ‘naraaz’. ‘Raaz’ significa segredo. Então, ficar chateado é não entender os segredos! Poder ver o quadro completo ajuda muito. Se nos treinarmos para conseguir ter uma perspectiva ampla, vemos mais e compreendemos mais. Amplitude de visão traz a estabilidade. Caso contrário, reagimos insensatamente porque não entendemos os segredos por detrás dos acontecimentos.

3 de maio de 2015

A próxima dimensão de nós mesmos


Um desenho animado sobre ‘Dr. Quantum em sua Visita a Planolândia’ saiu como uma parte complementar do documentário sobre a visão quântica do mundo, ‘Quem somos nós’*. Ele ilustra perfeitamente o dilema que temos como seres humanos.
Planolândia é um mundo de apenas duas dimensões habitado por linhas, círculos, quadrados, polígonos e etc. Os seres deste lugar só têm comprimento e largura. Num diálogo entre Dr. Quantum e um círculo feminino, o dilema fica bem claro. Para cima e para baixo são conceitos tão inconcebíveis, que especular a respeito de outras dimensões é proibido. A pequena círculo tem tanta dificuldade em compreender a palavra 'acima' que ela acha que a voz que ela ouve, mas não vê,é de um fantasma, uma pessoa louca e até mesmo um deus.
A dimensão interna onde o potencial de cada ser espera sua vez, é vista por muitos com a mesma incredulidade que um círculo que tenta entender uma esfera.
A possibilidade de autodesenvolvimento a partir de uma compreensão profunda do ser e do mundo em que vivemos acaba sendo uma pura viagem da imaginação. Somos planolandenses tentando entender a dimensão seguinte.
Numa conversa que tive com um grande amigo que já foi o presidente mundial de uma das maiores empresas de tintas, ele revela a dificuldade de lidar com a próxima dimansão de nós mesmos. Ele disse: “Não somos suficientemente conscientes para enxergar pelas relações que temos, que somos parte deste mundo. É o nível baixo da nossa consciência que reduz nossa capacidade de manter a coerência entre os valores que queremos como seres humanos e os valores que vivemos como ‘seres de negócio’?
Como líderes de nossas famílias, empresas e comunidades, temos a responsabilidade de começar a criar e sustentar a unidade de valores entre o que praticamos e o mundo do qual fazemos parte. Temos de nos tornar conscientes de que somos cidadãos globais que querem viver e contribuir para um mundo melhor para todos nós.”
Bravíssimo!


* “What the Bleep do we Know”, Lord of the Wind Films, 2004 (www.whatthebleep.com)

Este texto é do meu livro, Espírito do Líder, Vol. 2, da Editora Integrare

25 de abril de 2015

A liberdade de ser quem sou


A liberdade tem dois lados.
Tenho que estar livre de quaisquer situações e apegos que me derrubam ou me seguram para trás. Também tenho que ser livre para poder expressar meu verdadeiro potencial.
Quando criança, eu adorava ir às praias desertas. Ficava horas olhando as gaivotas que brincavam e deslizavam felizes. Me perguntava “por que os adultos em volta eram tão complicados e pesados por suas próprias decisões?”. Mesmo nessa idade tão jovem, eu também estava preso por muitas coisas que não queria fazer. Muito mais tarde, entendi que a sensação de liberdade das gaivotas estava conectada à sua proximidade de ser o mais natural possível. Em outras palavras, elas estavam apenas sendo elas mesmas. Da mesma forma, a grama cresce sem qualquer esforço. Nuvens se formam, a chuva vem, o sol brilha. A natureza se desenrola em uma sinfonia inexorável do que ela é.
Jean-Jacques Rousseau, o filósofo francês, foi o inventor provável do clichê, “de volta à natureza”. Embora ele mesmo não tivesse conseguido voltar, ele vendia a ideia de forma tão eloquente. Ele expressou este estado com estas palavras: “o homem nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferros”. Gerações de pessoas têm procurado a paz e a tranquilidade, longe das ramificações urbanas em suas tentativas de voltar à natureza, pelo menos nos fins de semana. É como se aquela natureza convocasse a nossa natureza interna para um encontro, para haver um melhor entendimento entre as ambas.
Um dos maiores paradoxos é que a liberdade faz parte da natureza original da própria alma. Antes de virmos a esta dimensão física, não temos pensamentos e até mesmo não temos relacionamentos com ninguém e nada. Nesse sentido, somos livres ‘de fábrica’. Então, bate a saudade por uma sensação de liberdade espiritual, quando nós não a temos mais.
Um dos ensinamentos do budismo é que este mundo é um lugar de sofrimento e de que temos de nos tornar livres das garras da roda interminável de renascimento. Fazemos isso através de levar uma vida moralmente correta, de sermos conscientes e sábios no uso de nossos pensamentos, palavras e ações.
Jesus disse que a verdade nos liberta. Mesmo que isso possa soar ingênuo para alguns, é bastante profundo. Não é só uma questão da liberdade, que é o nosso bem mais precioso, mas a compreensão dela. Se colocamos um pássaro em uma gaiola, ou contemos um cão brincalhão com uma correia, vamos observá-los tentando sair imediatamente. Da mesma forma, ser verdadeiro comigo, com as minhas qualidades interiores profundas e na minha relação com o Divino, vai me mostrar automaticamente como manter-me livre ao fazer as coisas e interagir com os outros.
Há uma história sobre um homem rico que tinha um negócio extremamente lucrativo que o mantinha ocupado sete dias por semana. Ele estava tão ocupado que aquilo tinha começado a afetar sua saúde. Ele veio de uma família pobre e seu irmão ainda era um simples pescador. Um dia ele perguntou por que este irmão não poderia trabalhar mais para ganhar mais dinheiro. A troca foi assim:
- Por que eu iria querer trabalhar mais? Eu já tenho tudo o que preciso.
- Se você trabalhar mais, você seria capaz de comprar um outro barco e talvez alugar para outros. Assim, poderia ter outros trabalhando para você.
- Por que eu faria isso?
- Para ganhar mais dinheiro.
- Por que eu iria precisar de mais dinheiro. O que eu ganho é suficiente para pagar todas as minhas despesas.
- Mas se você tivesse mais dinheiro você poderia ser muito mais livre economicamente. Talvez você pudesse comprar outra casa em algum lugar onde você poderia ir e relaxar.
- Mas eu já estou relaxado. Minha vida é simples, fácil e livre.
O significado desta história não é que todos temos que nos tornar simples pescadores. É que temos de organizar nossas vidas de acordo com as nossas necessidades reais, e não as imaginadas.
Certa vez, com um grupo de executivos em Sri Lanka, lhes pedi para para visitar a selva ao redor de onde estávamos acampados, apenas observar o que estava acontecendo no presente e escrever a experiência em seus cadernos. Uma vez que todos estariam sentados sozinhos, lhes pedi a falar em voz alta com a natureza – com as árvores, pedras, folhas, insetos, nuvens, córregos ou o que quer que estivesse na sua frente - e ver o que eles poderiam aprender. Um deles voltou com uma compreensão incrível sobre árvores - como todas crescem em direção à luz, mas que não monopolizam o espaço. À medida que novas árvores apareçam, as mais velhas simplesmente se movem um pouco para o lado para que as novas também desfrutassem da luz.

Tudo isso nos remete à questão fundamental de "quem sou eu?" - o ‘teaser’ eterno para mentes questionadoras. No Alcorão é dito que Deus deu inteligência aos anjos e apetite aos animais. Para os seres humanos Ele deu os dois - inteligência e apetite. É justamente nestes dois pontos aonde ficamos presos. Desenvolvemos o que achamos que é a inteligência e entramos em todos os tipos de amarras. Obedecemos os nossos apetites e nos tornamos prisioneiros dos objetos dos sentidos. Como pássaros segurando em galhos das árvores, oramos a Deus para nos libertar de toda a bagunça que conseguimos criar para nós mesmos. O Divino então nos olharia e diria “que não são os galhos que nos seguram, mas que nós os agarramos”.

13 de abril de 2015

As pequenas verdades relativas e a grande absoluta


DEVIDA A INÚMEROS PEDIDOS RESOLVI REATIVAR ESTE BLOG DEPOIS DE ALGUM TEMPO

Vivemos em um mundo que tem tantas opiniões quanto existem pessoas. No Brasil, diz-se que há 200 milhões de treinadores da seleção nacional de futebol. É toda a população! Corajoso é o treinador oficial que se atreva a perder um jogo importante. Na posição de buscador favorito do mundo de informação, através do Google dá para descobrir tudo a favor e contra todo o resto. Café, grãos de soja, leite, trigo - o que você quiser - é bom ou ruim para o seu sistema nervoso, coração, fígado, cérebro e etc. Depende da fonte ou do interessado que pagou a pesquisa. As doenças são inventadas para vender drogas e as drogas são inventadas para promover ou resolver doenças. Faça sua escolha.
Em um retiro recente sobre música e espiritualidade, pedimos aos participantes ouvirem cinco peças de música e verificarem suas reações emocionais - samba brasileiro, heavy metal, clássico, música gospel e o hino nacional. Mais uma vez, houve uma diversidade de opiniões - alguns estavam em acordo, outros em desacordo frontal. O ex-rebelde da geração X que associou sua busca de liberdade nos anos 80 com os acordes estridentes de heavy metal não podia se ver olho no olho com o fã do Adagio em G Menor de Albinoni. O fervor de orgulho estimulado pelo hino nacional em alguns se contrapôs à indignação de outros pelo estado atual do país.
Apesar da pluralidade quase total de pontos de vista no mundo, há uma implicação subjacente de que existem verdades universais. Estas tornam-se a base das nossas leis. Por exemplo, assassinar outros, roubar e estuprar – tudo isso é condenado em quase todas as sociedades. Percebe-se que a conduta moralmente responsável é melhor do que o caos generalizado.
Ao mesmo tempo, muitos olham esperançosamente para a ciência como a melhor fonte de verdades absolutas. Paradoxalmente, a própria ciência nega isso, enquanto se concentra em aperfeiçoar ainda mais ou alterar as suas teorias (e, assim, invalidar 'verdades' anteriores). Basta comparar o que eram as verdades ‘absolutas’ 200 anos atrás com o que se acredita hoje. Duzentos anos a partir de agora, provavelmente iremos rir bastante dos paradigmas científicos de hoje.
Em um nível mais mundano, se um cão é visto vindo e indo da casa de alguém, os vizinhos dizem com absoluta convicção de que o cão vive lá. No entanto, se o proprietário diz que ele é o melhor cão do mundo, só é verdade para ele. Mesmo que apenas 2% da população mundial tenha olhos verdes, isso não significa que aquela é a melhor cor para os olhos. Toda cor é boa. Cada opinião tem algum mérito, pelo menos para a pessoa que a sustenta.
O problema é quando as opiniões são agrupadas em ‘ismos’ (religiões e partidos políticas), e então, elas naturalmente entram em conflito com outras versões da mesma coisa. Isso acontece especialmente com a política ou a religião, quando esquecemos de que, não importa a tonalidade, os ismos são apenas diferentes tipos de equipes jogando esportes com bola. Todos os ismos têm o objetivo de mover a bola de sua crença de um lado do campo ou quadra para o outro. Sempre há metas relacionadas com onde e como colocar a bola, a fim de vencer as equipes adversárias. Cada esporte que usa bola tem as suas regras. No basquete, não se pode tocar a bola com os pés. No futebol, não se pode tocar a bola com as mãos. Se, num jogo de handebol, você derruba alguém ao estilo de rugby, certamente recebe um cartão vermelho. No entanto, você não pode dizer que um esporte é melhor do que o outro. Cada um deles é bom em seu próprio estilo. Apenas desfrutamos da diversidade.
Há uma canção popular brasileira de Gilberto Gil - "Se eu quiser falar com Deus". E se Deus quisesse falar conosco? Ele ou Ela (quem sabe?), provavelmente nos diria algo muito diferente de qualquer coisa que já imaginamos. Isso seria a verdadeira medida absoluta das coisas. Seria como receber uma régua com a qual medir todas as nossas diferentes crenças e comportamentos.
Por exemplo, se Ele dissesse que somos todos pequenos pontos de energia consciente animando nossos corpos, que não teriam vida de outra forma. Que viemos de uma dimensão de luz além do universo físico, tomamos corpos e que, após um vasto processo cíclico, temos de voltar para essa dimensão. Que Ele permanece sempre ali naquele lar de luz e silêncio, justamente onde tentamos visitar sutilmente nas nossas orações e meditações. Que surpresa seria se dissesse que Ele não é onipresente neste mundo físico e que Ele só sabe o que precisa saber. Ele não guarda um livro de todos os nossos pecados, nem Ele se senta no céu vendo o que fazemos ou não fazemos. Ele não envia raios de luz para nos explodir onde estamos, quando não estão nos comportando bem. Ele não tem nenhuma religião favorita, porque todas as almas são Seus filhos.
Em outras palavras, Ele/Ela provavelmente refutaria os mais sagrados dos conceitos criados pelo homem. Há tantas coisas que foram ditas a respeito de Deus por todos os lados. O que Deus, por Sua vez, quer dizer sobre nós e as nossas pequenas verdades relativas? A triste notícia é que não sabemos que não sabemos a medida que cambaleamos para frente. A melhor notícia é que temos uma chance de sermos honestos e aceitar a diversidade maravilhosa em que vivemos.